Ser ou estar - eis a questão

  • Renato Guedes Filho
  • 21-07-2020
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Quem já estudou inglês, francês ou outros idiomas percebe logo nas primeiras aulas que nessas línguas não há dois verbos separados para SER e ESTAR. Em Inglês por exemplo, o verbo to be é usado em contextos onde usaríamos um ou outro verbo:

This cat is white - Esse gato é branco
He is at home now - Ele está em casa agora

Para nós lusófonos1, ter apenas um verbo que signifique SER/ESTAR pode soar estranho em frases do tipo He is at home ‘ele é em casa’. Na verdade, a maior parte das línguas do mundo não possuem dois verbos separados para o verbo ser como a nossa língua. Por isto, este aspecto da língua portuguesa pode ser bem desafiador estudantes de português como língua estrangeira, principalmente por que as regras de uso de um ou outro verbo são muito complexas. Nós, falantes nativos de português, sequer sabemos dizer quais regras utilizamos para empregar um ou outro verbo porque aprendemos nossa língua materna através da convivência no dia-a-dia. Mas pesquisas realizadas por linguistas conseguiram mapear em que contextos usamos SER ou ESTAR.
A principal diferença é que usamos o verbo SER quando queremos falar sobre um estado permanente e ESTAR para nos referirmos sobre um estado transitório.

Ana é loira / Pedro é feliz
Ana está loira / Pedro está feliz

Quando dizemos que ‘Ana é loira’, queremos dizer que esse é o estado natural de seu cabelo. Já quando dizemos ‘Ana está loira’ significa que loiro não é o estado original de seu cabelo, que hoje ela está loira mas pode ser que um dia não esteja mais. A mesma distinção ocorre com o par de frases a respeito de Pedro. Na frase ‘Pedro é feliz’ queremos dizer que Pedro tem sido uma pessoa feliz ao longo de sua vida, que essa é uma qualidade pessoal dele. Por outro lado, na frase ‘Pedro está feliz’ queremos dizer que Pedro está feliz nesse momento, mas que em outros momentos não necessariamente esteja assim.

Mas as regras de uso desses dois verbos são bem mais complicadas. Observe:

Carla está morta
João é secretário

Na frase Carla está morta, embora a morte seja um estado definitivo, o verbo ESTAR é usado. Isso acontece porque nesse caso ESTAR indica que houve uma mudança de estado, já que um dia ela foi viva. Na segunda frase, o uso do verbo SER pode ser entendido pela associação que fazemos do trabalho como se fosse uma qualidade essencial da pessoa ou pelo simples fato de sermos habituados a usar o verbo SER neste contexto para nos referirmos à profissão de alguém.

Como você pode imaginar, para um falante de Inglês, Francês ou de uma outra língua que não tenha esse tipo de distinção, aprender quando usar um ou outro verbo exige bastante contato com a nossa língua, pois nem sempre as regras são claras. De fato, quando aprendemos um idioma estrangeiro, independente de qual seja, devemos procurar nos expor bastante à língua de interesse por meio de filmes, livros, músicas, notícias e outros meios para nos familiarizarmos com ela.

Você pode se perguntar, de onde vem essa peculiaridade da língua portuguesa. A resposta é que a distinção entre SER e ESTAR foi herdada do Latim e também está presente em algumas línguas irmãs do Português como o Espanhol (SER/ESTAR), o Catalão (ÉSSER/ESTAR) e em menor grau o Italiano (ESSERE/STARE). O emprego de um ou outro verbo é similar entre elas, mas algumas diferenças existem. Por exemplo, em Español, para se dizer ‘Fulano é louco’ o verbo SER não pode ser utilizado, mas sim o ESTAR: Fulano está loco. Para dizer que alguém é permanentemente louco, deve-se dizer Fulano es un loco. Em catalão, não há problema em se dizer ‘O cachorro é morto’ El gos és mort.

De maneira ainda mais inesperada para nós lusófonos, algumas línguas como o Russo e a Libras não usam o verbo ser neste tipo de frase. Em Russo por exemplo:

я бразилец (ya braziliets) -  Eu sou brasileiro
‘eu brasileiro’
он сейчас дома (On seitchas doma) - Ele está em casa agora
‘ele agora casa’

E em Libras:

 - 
‘Eu’  -  ‘surdo’ 
Eu sou surdo       

Como você observou я ‘eu’ e бразилец ‘brasileiro’ são ligados diretamente. O mesmo acontece nos sinais em Libras EU SURDO. Isso não quer dizer que essas línguas não tenham o verbo SER, apenas indicia que eles não são usados nesse tipo de frase.

Todas as línguas têm as suas particularidades, e o Português, com o qual estamos tão familiarizados, também. Geralmente não discutimos essas regras, sobre como usar os verbos SER e ESTAR nas aulas de gramática na escola por um motivo bem simples: nós enquanto falantes nativos quase nunca erramos, mesmo que a regra de uso seja bem complexa. Isso mostra que ao contrário da crença preconceituosa de que algumas pessoas não saibam falar direito, todos nós falantes de Português temos domínios das regras gramaticais da língua falada, por mais complexas que elas sejam.

Referências

Dicionário da Língua Brasileira de Sinais. Disponível em: http://www.acessobrasil.org.br/libras/.  Acesso em: 23 jun. 2020.

MARTINS, J; FERREIRA-MEYER, K.; MORAIS, M. A. Didactics of ser/estar in a Portuguese as a Foreign Language environment. In:ARAUJO, Carla et al. (Ed.). I Encontro Internacional de Língua Portuguesa e Relações Lusófonas (LUSOCONF2018).Bragança: p. 99-11, 2019.

GOOGLETRANSLATE. Disponível em: www.googletranslate.com. Acesso em: 23 jun. 2020.

GUIJARRO-FUENTES, P. ¿Ser o estar? Cuestiones sin resolver para el español como lengua extranjera. Revista Nebrija de Lingüística Aplicada a la Enseñanza de Lenguas. vol.2, n.3, 2008.

1 Lusófono- Aquele ou aquela que fala português.
Renato Guedes Filho, Estudante

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