Um despertar nas Línguas em Diálogo

  • Adriano Luís Fonsaca
  • 16-11-2020
  • (0) Seja o primeiro a gostar disso!

Um despertar nas línguas em diálogo

1. Introdução

O artigo aqui presente discorre sobre o projeto de extensão Línguas em Diálogo do curso de letras da Universidade Federal do Paraná. Criado em 2019, o projeto visa divulgar línguas diferenciadas para a comunidade; no momento, para alunos da rede pública de ensino. Além da oferta de cursos de línguas como o polonês ou o esperanto, os graduandos participantes do projeto, bem como os professores responsáveis, buscam apresentar uma perspectiva plurilíngue para o público alvo nos colégios. Como um grande objetivo principal, essa extensão visa despertar os alunos para a diversidade linguística, para que entendam como o aprendizado de qualquer língua estrangeira pode ser. Uma língua estrangeira não precisa necessariamente ser o que o senso comum nos apresenta como “útil”; a cultura e oportunidades de todo o planeta falam milhares de idiomas com variadas sonoridades e o acesso a elas não é pensado unilateralmente, mas sim através da intercompreensão como apresentado pela disciplina de Seminários em Estudos Linguísticos II na pós-graduação do curso de letras da UFPR no início de 2020.

2. Objeto e Fundamentação Teórica

2.1. O objeto de análise

Universidade Federal do Paraná, maio de 2019, formalmente o projeto de extensão Línguas em Diálogo (LeD) se inicia. Por resumo submetido a PROGRAD (Pró-reitoria de Graduação e Educação Profissional), a proposta de extensão esclarece acerca de suas atividades:

Atuando na universidade, em escolas de ensino fundamental e médio e em espaços públicos, o projeto tem por objetivos sensibilizar a comunidade no que se refere à diversidade linguística e ao multilinguismo e oferecer cursos gratuitos de línguas estrangeiras pouco presentes em instituições de ensino. Neste momento, o foco do projeto está no polonês e no esperanto, com possibilidade de ampliação para outras línguas (LÍNGUAS EM DIÁLOGO, 2019).

Nota-se, pelos objetivos centrais do projeto, uma preocupação em sensibilizar a comunidade em relação à diversidade linguística. Preocupação que se estende, em especial, para espaços públicos de ensino como escolas, colégios e até ao meio universitário. Essa inquietação surgiu, entre os professores proponentes da extensão, devido a estudos prévios que lhes alertaram para a visível hegemonia do ensino de inglês na sociedade como uma suposta “principal” ou “única língua estrangeira necessária” de ser aprendida. Um bom espaço também é preenchido pelo espanhol que ainda está presente no ensino fundamental e médio, mas que sempre precisa ficar reconquistando e marcando sua posição. Esses preconceitos linguísticos, em especial o de tornar o inglês a “única língua estrangeira útil”, passa pela óbvia dominação cultural imposta pelas estruturas do capital que propagam a língua do país mais rico financeiramente do mundo, EUA, como a principal forma de comunicação mundial. Essas imposições culturais geram também um senso comum pautado na suposta aplicação prática tecnicista de algum aprendizado, no caso o das línguas.

Esse dilema educacional, podemos assim dizer, é complexo e carece de emancipação social, tendo em vista que

O que está em jogo é a transformação da sociedade como um todo, pois, enquanto vivermos numa estrutura social cuja existência mesma exige desigualdades sociais profundas toda tentativa de promover a “ascensão” social dos marginalizados é, se não hipócrita e cínica, pelo menos de uma boa intenção paternalista e ingênua (BAGNO, 2009, p.91).

Podemos imaginar que idiomas como o francês ou alemão, que possuem um certo espaço na comunidade educacional, o possuem devido a manutenção de um poder linguístico elitista que outrora desempenharam com maior vigor. Vale pensarmos como, no século XIX, o “chique” era aprender francês e não inglês com a desculpa: “tudo de intelectual e importante que existe está escrito ou traduzido para essa língua”. É claro que uma série de outros fatores podem e devem ser os responsáveis para tal alcance dessas línguas no ocidente. Por exemplo, os países de língua alemã tiveram por um período uma grande tradição de estudos filosóficos ou científicos próprios que foram escritos em suas línguas, todavia essa “tradição” leva a uma sistematização e ocultamento, mesmo que breve, de outras línguas e culturas. Vale pensarmos em exemplos atuais, como o da Holanda que cada vez mais oferece cursos em inglês, em detrimento de seu próprio idioma ou no sociólogo polonês Zygmunt Bauman que acabou por quase nem escrever na língua de sua nação, o polonês.

Mesmo que fosse por necessidades legítimas de massificação dos saberes e de uma utópica unificação em torno de uma língua franca, a questão de somente uma língua pautar o mundo todo parece, no mínimo, desleal. Independentemente de possíveis polêmicas e das diversas reflexões que o dito no parágrafo acima pode gerar, vale pontuar que o projeto Línguas em Diálogo pensa justamente nos idiomas, usando as palavras de Bagno, marginalizados em detrimento de outros vistos como mais importantes. A ideia central é divulgar idiomas e culturas diversas das que já temos divulgadas à exaustão pela sociedade.

Frisa-se também que a ideia do projeto não perpassa por excluir o ensino de inglês e outras línguas ou colocá-las numa “periferia das línguas”, mas sim em entender todo esse processo de aprendizagem do inglês e demais idiomas numa perspectiva de ensino plurilíngue. Pensando, especialmente, em como somar novos conhecimentos no que diz respeito ao ensino das línguas. Para confirmar o dito, observemos quais os eixos em que o projeto de extensão Línguas em Diálogo circunda e mais algumas informações:

1) divulgação de línguas e culturas diversas por meio de ações pontuais e com o intuito de sensibilizar a comunidade para a diversidade linguística e o multilinguismo; 2) oferta de cursos de línguas e culturas diversas para a comunidade; 3) contribuição na formação de docentes. As ações pontuais mencionadas acima serão ministradas por estudantes, bolsistas ou não, e sempre com o acompanhamento de orientadores e orientadoras mais experientes. Essas ações consistirão em palestras, oficinas, atividades lúdicas, festivais de línguas e outras atividades correlatas, podendo ocorrer na própria UFPR. O projeto é, porém, voltado sobretudo para escolas, e foi concebido para se desenvolver em parceria com a direção e o corpo docente desses espaços, de modo a estimular uma troca de conhecimentos e experiências e uma reflexão em torno da realidade linguística e cultural diversa de nossa sociedade. Os cursos de línguas estrangeiras, oferecidos em espaços como o CELIN ou as escolas envolvidas, serão igualmente ministrados por estudantes com o devido acompanhamento de orientadores e orientadoras. Esse acompanhamento se dará na concepção, preparação, aplicação, avaliação e reelaboração de planos de aula, de material didático voltado para o ensino das línguas em questão, bem como na orientação para produção e apresentação de trabalhos acadêmicos relacionados à área (relatos de experiência, artigos acadêmicos, pôsteres etc). As orientações serão realizadas numa abordagem dialógica, com o objetivo de realizar um trabalho de integração, na medida do possível, entre as experiências e conhecimentos dos diversos atores do processo: orientadores e orientadoras, estudantes ministrantes, profissionais de ensino e alunos e alunas das escolas que se interessem pelo projeto (LÍNGUAS EM DIÁLOGO, 2019).

Após o processo de seleção de bolsistas e voluntários, o projeto de extensão começou a se reunir periodicamente e registrar suas atividades em atas. Dentre os alunos bolsistas, temos o pesquisador responsável por este artigo, Adriano Luís Fonsaca e outro aluno do curso de Letras Polonês, Ricardo Potozky de Oliveira. Veremos, na sequência, o que já foi decidido e estudado desde que o projeto iniciou suas atividades com o apoio de discentes.

2.2. Teorias refletidas pelo Línguas em Diálogo

Durante as reuniões e estudos internos do LeD, participaram ativamente os professores Ivan Eidt Colling, Eduardo Nadalin e Alicja Goczyła Ferreira; os alunos bolsistas Adriano Luís Fonsaca e Ricardo Potozky de Oliveira; esporadicamente, os alunos voluntários José de Oliveira (Letras Grego), Maria da Luz, Ana Fernanda e Larissa (as duas últimas já atuaram no PBMIH e as três são do Letras Polonês).

Em nossos encontros foram apresentados e discutidos conceitos importantes ao desenvolvimento do projeto. A professora Alicja, titular no curso de Letras Polonês, nos apresentou que

Bi- e multilinguismo são fenômenos multifacetados, dinâmicos e altamente heterogêneos, que têm ocupado as mentes de pesquisadores de várias áreas, tais como psicologia, sociologia, linguística, demografia e neurologia. (...) As influências entre eles (universo individual e social) são bidirecionais, sendo possível, por exemplo, que as atitudes individuais para com uma língua específica desencadeiem um processo de mudança linguística dentro de uma comunidade (FERREIRA, 2019, p.61).

Por essa ideia, compartilhada entre os professores e aceita pelos alunos, incialmente o projeto já traz um olhar diferenciado do tradicional no que concerne ao aprendizado das línguas. Aqui, já fica claro para os participantes, que não só o universo individual de um sujeito ocupa o centro de sua formação, mas o contexto social ao qual pertence também. Disso também se extrai quer o aprendizado de diversas línguas não diz respeito somente a uma condição meramente de aprendizado tecnicista onde um conhecimento é “transplantado” do professor aos seus alunos, mas que a vivência do aluno – professor – e da comunidade a qual ocupa é fator fundamental nesse processo de aprendizado. Não estamos aqui pensando em um sujeito como alguém que possui determinada língua e, na sequência aprende um segundo ou terceiro idioma de uma forma linear, mas sim em um sujeito plural que pode estar recebendo influências de diversas línguas ou culturas ao longo de sua vida, seja através de povos indígenas que possam viver ao entorno de sua pequena cidade, através do japonês ouvido por um jovem em um videojogo ou etc.

Na sequência, discutimos também sobre a importância da divulgação de línguas menos difundidas na sociedade. Essa difusão poderia incentivar um aprendizado multilinguístico ao nosso público. Esse processo de uma conscientização linguística não passa somente por oferecermos o aprendizado de idiomas como o polonês, esperanto, grego ou finlandês, mas também em trazer a luz o fato de que existem sim outras línguas estrangeiras além do inglês que podem ser aprendidas e “servem para algo”. Algumas outras como o alemão, francês e italiano já possuem um destaque histórico um pouco maior na sociedade brasileira. O espanhol, que é falado em todos os países vizinhos do Brasil e por muitas pessoas ao redor do mundo, parece sempre precisar lutar pelo seu espaço na escola pública, por exemplo. Até mesmo essas pequenas dificuldades de outros idiomas que não o hegemônico inglês, servem para encaminhar as ideias do projeto.

O processo do despertar para as línguas na extensão perpassou pela questão das línguas minoritárias e minorizadas. Fato presente na realidade do Brasil, pois podemos lembrar que no país passa de uma centena o número de línguas faladas (AMAZÔNIA: NOTÍCIA E INFORMAÇÃO, 2020). E, em 2018, tínhamos onze línguas cooficializadas no país. Alguns desses dados sobre diversidade linguística encontramos no IPOL – Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística – que “é uma instituição sem fins lucrativos, de caráter cultural e educacional, fundada em 1999, com sede em Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, que representa os interesses da sociedade civil” (IPOL, 2020).

duvidosos que beiram mais o sensacionalismo do que a ciência, em especial em As Línguas do Mundo onde, em dado momento, o autor passa informações como a de que “É intrigante a origem do nome Brasil – e ela mesma sugestiva de visitantes pré-colombianos às Américas. Brzl, acrescentando-se à palavra as vogais adequadas, significa ‘ferro’ em hebraico” (BERLITZ, p.197, 1988). Qualquer brasileiro que tenha cursado os primeiros anos da escola, reconhecerá essa informação como risível e inverossímil. Até mesmo um linguista que imaginasse ser possível essa origem histórica do nome Brasil apresentada por Berlitz, provavelmente acreditaria mais, num primeiro momento, justamente o mais óbvio: Brasil é oriundo de “pau-brasil” e possui similaridade com palavras portuguesas como “brasa” ou “braseiro” e dificilmente teria advindo de “visitantes pré-colombianos” que vieram ao continente. Desses autores decidimos por talvez utilizar algumas de suas “curiosidades sobre as línguas” com os alunos, mas desde que reconfirmássemos as informações diversas vezes e em diversas fontes antes de toma-las por verdade.

Dentre as atividades organizativas, analisamos outros materiais como o documentário do Museu Paraense, a série Brasil em Outras Línguas, programa Como Será? (GLOBO, 2020) que passa informações justamente sobre a diversidade linguística brasileira.

Uma ação decidida foi a de expor livros em diversas línguas. Como chamariz, exibimos livros famosos traduzidos para línguas “inusitadas” como esperanto ou polonês. Foi o caso de O Hobbit de J. R. R. Tolkien, o que pode ser visto no registro abaixo:

Imagem 1 – Livros em e sobre diversas línguas para apresentação ao público.

Após os estudos – e durante, pois eles são contínuos –, participamos do SIEPE (semana integrada de ensino, pesquisa e extensão) na UFPR. No pátio da Reitoria, divulgamos as ideias do LeD para populares que participavam do evento, bem como para discentes, docentes e funcionários da UFPR que por ali transitavam. A recepção foi ótima e alunos de outras áreas, como das engenharias, gostaram da ideia e até se espantaram dizendo coisas como “nunca tinha pensado nas línguas dessa maneira!”. Em três de outubro de 2019, o projeto foi até o calçadão da Rua XV de Novembro, ao lado da Praça Santos Andrade, para divulgar o projeto dentro da manifestação em defesa da educação pública. Na ocasião, distribuímos panfletos para a população sobre línguas “inusitadas” e conversamos com algumas pessoas sobre a pesquisa que o LeD desempenha dentro da universidade e as ofertas de cursos dentro do Celin.

Para terminar as atividades de 2019, o Línguas em Diálogo se fez presente no Colégio Estadual Jayme Canet em Curitiba onde expôs o material e conversou com alunos durante o intervalo das aulas. Ficou definido, com a diretora, que faríamos palestras sobre a diversidade linguística e afins agora em 2020 e ofereceríamos cursos de línguas “diferentes” para os alunos.

Imagem 2 – Cartaz de divulgação do Projeto Línguas em Diálogo

2.3. Teorias refletidas para o Línguas em Diálogo

Tendo em vista o cenário apresentado e com o intuito, em partes, de somar a extensão, o aluno participante do LeD que escreve este artigo, Adriano, se inscreve em 2020 em uma disciplina de pós-graduação de Letras da UFPR. Seminários em Estudos Linguísticos II foi ministrada pelos pesquisadores Profª. Sílvia Melo-Pfeifer (Universidade de Hamburgo) e Prof. Francisco Calvo del Olmo (UFPR). Dentro da disciplina foram discutidos conceitos já presentes nas reflexões do LeD, como o multilinguismo ou o plurilinguismo. Todavia, um aprofundamento deles se fez e muitas novidades também foram abordadas.

Pensando sob a ótica de como entender um aluno de língua estrangeira, podemos pensar em reflexões como a de “onde viemos e para onde vamos”. Em contextos plurilingues, como o da Alemanha contemporânea e sua grande parcela de imigrantes e refugiados, que muitas vezes não sabem nada da língua alemã, essa reflexão serve prontamente para a sala de aula. Como outro exemplo, em regiões do Brasil onde possuímos idiomas indígenas ou outras línguas cooficializadas esse pensamento nos leva a encararmos o ensino por uma outra perspectiva. Saber de onde é e para onde se vai perpassa também pela relação entre professor e aluno numa dimensão emocional, pois suas vivências e perspectivas de mundo podem alterar o universo do ensino.

Para ensinar e aprender línguas, é necessário pensar na biografia linguística de cada um, repertório prévio e representações ou emoções de cada indivíduo (DIÁRIO DE AVEIRO, p.07, 2018). Pelas informações encaminhadas pela Profª. Sílvia Melo-Pfeifer em artigo no Diário de Aveiro, constatamos também que certas ideias advindas do senso comum não passam de preconceitos linguísticos. Por exemplos, a normalidade “do outro” onde um professor pode acabar, às vezes meio sem querer, perpetuando um racismo linguístico ao manter constantemente uma piada sobre algum aluno imigrante dizendo coisas do tipo: “Ah, mas Fulano não deve entender!”, “Eu seu que Ciclano não tem certeza!”; a ideia de que misturar é “pecado”, no sentido de que uma criança que fala mais de um idioma acabe por misturar palavras de línguas distintas em uma mesma sentença; o imaginário do aprendizado das línguas como um processo télico, que tem um começo e fim ao invés de entender como uma construção durante e para toda a vida do indivíduo; o bom e velho “falar bem” uma língua, como se um profícuo vendedor de peixes em um mercado em Lisboa que, negocia seu produto avidamente há décadas e vive tranquilamente com seu repertório linguístico, não saiba falar bem a língua portuguesa por algum suposto erro gramatical que venha a ter.

Alguns outros conceitos-chave apresentados durante a disciplina foram: competência plurilíngue, língua de herança, representações/imagens, diversidade linguística e cultural, afetividade, biografia linguística, equidade, consciência linguística (crítica) – sociolinguística, language awareness, competências linguísticas assimétricas, repertório, valor holístico da aprendizagem – aquisição, indivíduo – coletivo, perspectiva construtivista e socioconstrutivista, mobilidade, metodologia multimodal de investigação, interação, contexto, relações sociais.

Muitos dos termos apontados carecem de explicação, mas eles foram apresentados aqui para lidarmos com o imaginário de um ponto chave apresentado pela disciplina; a intercompreensão. Se imaginarmos os termos acima listados ou outras competências que achemos importantes para a metodologia do ensino de línguas numa perspectiva plurilíngue, o termo intercompreensão é extremamente vital e capaz de inter-relacionar diversos saberes.

Se pensarmos que

Há duas dinâmicas presentes na comunicação: a primeira tende a identificação – compartilhada por um grupo, nossa língua(gem) comum, em suma, a força do intercurso saussuriana -; a segunda está relacionada ao distanciamento – uma identidade exclusiva ou particular, a língua(gem) que nos identifica e diferencia, isto é, paroquialismo (ESCUDE e CALVO DEL OLMO, p.49, 2019),

todas as línguas possuiriam mecanismos para narrar acontecimentos, recursos para apresentar as relações dos falantes com o seu mundo ((ESCUDE e CALVO DEL OLMO, p.49, 2019); esses sistemas podem ser chamados de universais linguísticos. Essa ideia serve para começarmos a explicar a ideia de identificação. Historicamente as línguas desenvolveram-se em comunidades que possuíam contato entre si, logo a opacidade absoluta entre uma língua e outra é virtualmente inexistente ((ESCUDE e CALVO DEL OLMO, p.49, 2019). Todos os seres humanos, apesar de não parecer, poderiam se utilizar de artifícios de suas linguagens próprias para tentar se fazer entender, mesmo que minimamente, uns com os outros. Todavia, “evidentemente, um falante contemporâneo de português brasileiro não poderá decifrar um texto escrito em chinês do século XIII sem uma aprendizagem prévia das estruturas linguísticas, do sistema de escrita e dos códigos culturais que caracterizam o texto fonte” (ESCUDE e CALVO DEL OLMO, p.50, 2019). Logo, o aprendizado de certos códigos pode se fazer, sim, necessário para a intercompreensão.

Já o distanciamento diz respeito às diferenças que uma mesma língua possa ter para “demarcar” determinados falantes. Por exemplos, um advogado fala de uma forma empolada praticamente inteligível para um cidadão comum. Já, no norte do Brasil, certos regionalismos são diferentes de outros que aparecem no sul o que pode gerar um afastamento das comunidade mesmo ela praticando o mesmo idioma e, virtualmente, sendo homogênea. Até mesmo nessa situação, a intercompreensão se faz necessária, mesmo que estejam dentro de circunstâncias de negociação de sentido pautadas mais pelo meio cultural do que linguístico.

O termo de éveil aux langues, despertar para as línguas em português, criado por Eric Hawkins nos anos 1980 fala que o conceito buscou, inicialmente, como prioridade, desenvolver habilidades metalinguísticas nos indivíduos através da uma via de mão dupla que faria um intercâmbio entre a língua materna e a língua estrangeira de um indivíduo (HAWKINS, 1984). Ter boas habilidades na principal língua estrangeira que se tem domínio traz um impacto positivo no aprendizado de outras. A promoção da primeira língua estrangeira não impede nem atrasa a aprendizagem de uma segunda ou terceira. Pelo contrário, ter boas habilidades na sua primeira língua é uma vantagem e permite aumentar sua capacidade em se orientar na segunda língua.

O despertar para as línguas traz uma abordagem plural que é diretamente relacionada a intercompreensão e a uma didática integrada que possui abordagem intercultural. Por tanto não se deve pensar que um indivíduo sabe uma primeira língua (L1) que leva a uma segunda (L2), depois a uma L3 e assim sucessivamente. Pelo ponto de vista apresentado, devemos pensar em uma “LN” onde todas as línguas que o indivíduo teve ou têm contato se relacionam de algum modo. Essa interpelação encaminha não só a teoria, mas serve para ser aplicada na prática quando se ensina uma língua estrangeira.

3. Resultados/Reflexões/Encaminhamentos

Graças as reflexões da disciplina de Seminários em Estudos Linguísticos II, novas abordagens numa perspectiva de ensino plurilíngue serão encaminhadas e somadas ao projeto Línguas em Diálogo. Pela variedade e riqueza de teorias e textos apresentados durante a disciplina, apresentar todas infelizmente se mostrou uma tarefa impossível para um breve momento que é um artigo científico.= Ademais, uma das propostas sugeridas para ser aplicada ao caso do LeD, pela professora Melo-Pfeifer, infelizmente não foi possível de ser realizada devido ao período de isolamento social que passa o mundo nesse segundo trimestre de 2020. Com a universidade e colégios fechados, o LeD ainda não pode aplicar as novas teorias ou atividades planejadas para perceber um resultado no ensino de nossos alunos que poderia ser apresentado aqui.

Todavia, para um próximo momento possível com os alunos, já se planejaram algumas atividades de ensino numa perspectiva plurilíngue. Serão aplicadas atividades aprendidas durante o Seminários em Estudos Linguísticos II, como a flor das línguas ou a seguinte: pedir para que os alunos façam um desenho onde demonstrem o contato que tiveram com variadas línguas ao longo de suas vidas. Através desse desenho já será possível mostrar para o aluno como as línguas não são meramente algo técnico e normativo, mas também fazem parte das experiências de suas vidas.

“O professor só precisa atuar de maneira colaborativa, o que significa que ele deve conhecer a metodologia da intercompreensão, mas não a totalidade dos dados linguísticos, gramaticais, fonológicos etc. de todas as línguas em contato (ESCUDE e CALVO DEL OLMO, p.74, 2019)”, por isso com a bagagem e o entendimento que nós do LeD devemos pensar em termos da intercompreensão linguística; podemos, com a vivência, gostos e interesses dos alunos, despertá-los a uma visão não cartesiana do ensino das línguas. Devemos mostrar que “quanto mais línguas forem apresentadas, mais claramente aparecerão os traços da família linguística e com maior clareza cada uma definirá o seu lugar no continuum das outras. (ESCUDE e CALVO DEL OLMO, p.74, 2019)”, logo sempre podemos utilizar das ferramentas que já temos em mãos, como sermos falantes de português ou sabermos algo de inglês, para estarmos abertos a novas possibilidades de aprendizado.

A partir deste momento, o projeto de extensão Línguas em Diálogo da UFPR buscará incorporar ao seu repertório novas abordagens apresentadas pelo Seminários em Estudos Linguísticos II para aprimorar a extensão, pois “não obstante considerarmos que os repertórios cognitivos, socio-afetivos e linguísticos se atualizam na comunicação e serão transversais a qualquer contexto (MELO-PFEIFER, S. & SCHMIDT, A. 2014)” o que se encaixa perfeitamente nas atividades que já vínhamos desempenhando e continuaremos a desempenhar.

REFERÊNCIAS

AMAZÔNIA: NOTÍCIA E INFORMAÇÃO. Um Brasil de 154 línguas. Disponível em: https://amazonia.org.br/2020/01/um-brasil-de-154-linguas/. Acesso em: 13 abr. 2020.

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico. 51. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

BERLITZ, Charles. As Línguas do Mundo. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

ESCUDE, Pierre; CALVO DEL OLMO, Francisco Javier. Intercompreensão: chave para as línguas. São Paulo: Parabola, 2019.

FERREIRA, Alicja GoczyŁa. A PRESENÇA DA LÍNGUA POLONESA NA COLÔNIA DOM PEDRO II EM CAMPO LARGO, PARANÁ. 2019. 217 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Letras, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2019.

GLOBO. Brasil em outras línguas: Como Será?. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NZoqxA68IpA. Acesso em: 13 abr. 2020.
HAWKINS, Eric. Awareness of language: an introduction. Cambridge: Cambridge University Press, 1984.

IPOL. Sobre o IPOL. Disponível em: http://ipol.org.br/sobre-o-ipol/. Acesso em: 08 abr. 2020.

LÍNGUAS EM DIÁLOGO. Projeto de Extensão. Documento interno do programa. Curitiba: 2019.

MELO-PFEIFER, Sílvia. (H)À Educação: português línguas de herança; uma (má) língua ou são as más línguas?. : Português Línguas de Herança; uma (má) língua ou são as más línguas?. Diário de Aveiro. Aveiro, p. 07-07. 16 ago. 2018.

MELO-PFEIFER, S. & SCHMIDT, A. (2014). Desenha-te a falar as línguas que conheces: imagens de crianças luso(fono)descendentes na Alemanha acerca da sua Competência Plurilingue. In A. I. Andrade, Mª H. Araújo e Sá, R. Faneca, F. Martins, A. S. Pinho & A. R. Simões (org.), A diversidade linguística nos discursos e nas práticas de educação e formação. Aveiro: Universidade de Aveiro (159-182).

STÖRIG, Hans Joachim. A Aventura das Línguas. São Paulo: Melhoramentos, 1990.

Adriano Luís Fonsaca, Estudante

Graduando de Letras Polonês (UFPR) e pesquisador das línguas.

Deixe um commentário

Logo UFPR

Línguas em Diálogo é um projeto de extensão do curso de Letras da Universidade Federal do Paraná.
CLIQUE AQUI para ver o cadastro do projeto na intranet da UFPR.